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Da última vez em que a Bohemia se aventurou em uma cerveja nova, saiu a Confraria, que acabou incorporada à família. Agora, tudo indica que a história vai se repetir.

Meses atrás, anunciaram uma cerveja nova, especial, exclusiva, ultra mega diferenciada. Enfim, conversa de marketing. Vinha em um kit com copo e em pouquíssimas unidades, embaladas em uma caríssima caixa de madeira, adquirido apenas pela web.

Oaken

Claro que quase ninguém conseguiu comprar. Claro que todo mundo quis. Claro que lançaram novamente. Dessa vez de forma mais… mundana e menos exclusiva. Disponível em qualquer hipermercado.

Fui presenteado com uma garrafa e tratei de ir descobrir o que havia de tão exclusivo. Encontrei um sabor bem parecido à Confraria (embora o rótulo diga que é de baixa fermentação, portanto lager), agradáveis 6% de álcool, mas com um diferencial, um sabor diferente que deve ser decorrente da tal maturação em carvalho. Fãs de cachaça talvez se sintam em casa tomando uma Oaken.

Carvalho esse que constitui o ponto central da campanha de marketing: nobreza associada à madeira.

Hoje, folheando a VEJA, encontro uma propaganda de página inteira no verso. A mesma história: “atendendo a pedidos, trouxemos uma nova edição”, etc. Se o final for o mesmo da Confraria, a Bohemia vai contar com mais um rótulo em uma família bastante interessante, não tão popularesca como a água mineral Skol, e nem tão sofisticada e inacessível que impeça o acesso dos cervejeiros em potencial.

Esse posicionamento da Bohemia como cerveja gourmet, com a competição de botecos, só vai contribuir para solidificar a cultura do lúpulo no país.

Bem vinda Oaken, seja de forma temporária ou permanente.

E com tudo isso, permanece a questão insolúvel: quando a AMBEV vai trazer de volta a Royal Ale, que eu não tive a oportunidade de experimentar, mas que deixou uma legião de fãs desamparados?

Feliz Dia da Abóbora

Jerimum

Hoje, como todos sabem, é o Dia da Abóbora, também conhecida como Jerimum.

É também o dia em que os patriotas se unem para fingir que ligam para figuras obsoletas como o saci. E, pra não perder a viagem, potrestá contra o sistema. Já escrevi aqui o que penso sobre isso. Como não sou patriota nem costumo seguir manadas, vou é distribuir moedas de chocolate para quem bater na porta.

A festa só faz se consolidar. Meu sobrinho de 3 anos mora na Grande São Paulo, bem longe daquele ambiente em que o Halloween chegou ao país: os cursos de idiomas de classe média / média-alta. Eis que hoje ele vai participar de sua primeira festa de Halloween na escola.

Animadíssimo, não via a hora de se vestir de fantasma e assustar todo mundo. Nem parecia interessado nos doces. Boa sorte a quem tentar ensinar a ele que não se deve participar dessa festa…

O povo que critica é tão burro que não percebe que, a exemplo do que a Santa Madre nos ensina, a melhor forma de derrotar um inimigo é se infiltrar: poderiam tentar se misturar ao Halloween, do tipo saci pedindo doce, ou alguma coisa assim. Não sei se ia funcionar, porque convenhamos: as criaturas do folclore brasileiro são bem chatinhas. Mas seria uma abordagem bem mais inteligente.

E mais: se a molecada aderiu às bruxas e abóboras, é porque até então ninguém fazia nada pra promover sacis e mulas-sem-cabeça. Cochilou, o cachimbo cai!

Portanto, vamos parar de palhaçada, deixar as crianças brincar de monstro em paz e engolir esse sentimento de latino-americano recalcado.

Quem ainda assim se sentir incomodado, que vá caçar saci no mato.

Não, este não é mais um post debatendo o futuro da música, gravadoras, pirataria, Lars Ulrich, etc. É um post sobre… som. Arquivos de som. Sound samples.

Durante a mixagem de Tudo Morre Ao Ser Pensado precisávamos de um som de cuíca. Onde achar isso? Nem o samba usa cuíca mais.

Eis que o open source vem nos socorrer.

The Freesound Project

The Freesound Project é um gigantesco banco de dados de sons de todo tipo. A idéia aqui é amostras de som, e não músicas. Quem tipo de som? Qualquer coisa. Desde a cuíca em questão até sons ferroviários, industriais, ventiladores, etc.

Ao entrar no site, de cara, já aparece o Random Sound of The Day. Também dá pra escolher um som aleatório no menu.

É possível buscar por tags, tocar o som desejado (uma vez ou em loop) e baixar o arquivo mediante um simples e rápido cadastro (login, email e senha), que também dá acesso ao fórum. Permite comentários, busca de usuários e até geotagging, se você quiser buscar um som de locomotiva russa, por exemplo.

O site é free (Creative Commons), aceita (e merece) doações e vende umas camisetas bem legais com o logo de ondas sonoras. Está em fase de reformulação de layout, afinal tudo precisa de layout novo, mesmo que não precise.

A melhor parte? Dá pra tocar vários resultados da busca simultaneamente e em loop. Quem conhece os valores supersimétricos já deve imaginar o que vamos fazer com essa possibilidade: um disco, é óbvio!

Tudo Morre Ao Ser Pensado

Lembra do vídeo Betamax? Do mini-disc? Tancredo? E o Copersucar do Émerson?

Tantas foram as idéias que, assim que deram o primeiro sopro de vida, morreram. Algumas ainda estrebucharam um pouco, em estertores de agonia, como Gurgel, RPM. Outras, como o Esperanto, se recusam a morrer com dignidade, vivendo em uma espécie de limbo. Boa parte delas surge na nossa querida área de tecnologia, mas nem todas.

Estão todas lá, na capa de Tudo Morre Ao Ser Pensado. O título é outro mote antigo da banda, que foi se materializando e aglutinando todos estes sub-produtos do pensamento. Se eu ousei comparar o verso do Altar Quântico com o Somewhere In Time, o que dizer deste? Clique na capa e no verso para ampliar, e divirta-se procurando os produtos e idéias natimortos. Olhe com atenção: alguns não são tão óbvios.

Tudo Morre Ao Ser Pensado

Tudo Morre Ao Ser Pensado - verso

Tudo Morre também representa a morte da banda como foi concebida, mas não da sua essência: transformar tudo em som. É o último registro antes da chegada dos portugueses, que daria início à Fase dos Álbuns Brancos.

Tudo Morre Ao Ser Pensado: abre o álbum com um clima tenso de teclado, refletindo todo o risco de uma nova idéia. A perturbação só faz aumentar com o sax free e a bateria-ferroviária à Ayler. Garrafas chamam o mote, que é pronunciado com fúria, sepultando de vez as idéias.

Capoeira Superfluída: roda de capoeira supersimétrica.

Felicidade: base borbulhante e teclados esparsos.

SpaceSambá: samba-reason, com um ritmo meio bossa, cuíca open-source e uma letra com rima obsessiva.

Chegada Real: uma das mais pungentes e soberbas faixas da banda. Um ritmo rápido e constante serve de base para um toque triunfal que anuncia a chegada austera do soberano. Que pode ser um ovino ou um caprino. Fica a seu critério.

Astroblack: base e teclados que vão se transformando em um agudo tormento de frequências. Trilha sonora da aproximação e pouso de uma nave qualquer.

Brasil: faixa confusa, vários instrumentos tentando se acertar, sem nexo, sem direção, sem ordem, sem critério algum. Bem titulada.

Camocidade: base reason e um Camós discreto dão o tom para várias instâncias da transmissão de Portuguesa x Vila Nova pelo rádio, com eventual interferência de Jesus. Não há gols. Jogos de futebol às vezes também morrem ao ser pensados.

Hello Dolly: faixa confusa como são as idéias em fase de maturação. Tem de tudo aqui: bateria perdida, bateria invertida, teclados sem resolução, vocal grind. Morre subitamente após quase 6 minutos.

Baixe e ouça.

As fases branca e preta já foram resenhadas. Dando um salto quântisonórico, passemos ao período seguinte, em que predomina a evolução (aquela mesma, do sinhô Darwin).

Hoje é dia de festa: o mundo está fazendo aniversário: 6.012 anos!

Em 1658, lá na atual Irlanda do Norte, um arcebispo anglicano chamado James Ussher resolveu calcular a data da criação. Usando a Bíblia (claro) foi compilando a cronologia dos personagens principais, somou as idades e chegou a um resultado interessantíssimo:

O mundo foi criado às 9:00h da manhã do dia 23 de outubro de 4.004 AC.

Precisão até na hora!

Se hoje é motivo de riso, esse cálculo foi levado a sério durante muito tempo.

Méritos para James, que pelo menos tentou.

Muito mais valor tem ele do que esse povinho fundamentalista cristão que nega a datação por Carbono 14 mas não recusa tratamentos da medicina nuclear.

Um brinde ao mundo! Se possível, com Guinness em homenagem ao nosso amigo Ussher.

James Ussher

Agradecendo ao prof. Myers por lembrar da data. Eu tinha esse texto planejado faz tempo mas nunca parei para escrever. Quase deixo passar.

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