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Salve Chemosh

Na mitologia bíblica, Chemosh (ou Quemós, ou Camós) é um deus adorado pelos moabitas. Normalmente é representado com uma cabeça de touro e um forno no lugar do corpo. Por que o forno? Porque ele aceitava sacrifício humano. Nas representações é comum ver os adoradores entregando crianças de colo ao touro/fornalha. Por isso ele é frequentemente associado ao aborto pelos extremistas cristãos americanos, que convenientemente se esquecem do fato de Javé ter assado todas as crianças de Sodoma e Gomorra no enxofre.

Salve Chemosh

Um belo dia, em 2003, eu chego a Arbória e dou de cara com um velho órgão com 2 teclados. Havia sido resgatado (salvo?) de uma igreja. Provavelmente seria jogado fora. A partir desse dia ele passaria a fazer parte da história supersimétrica. Foi batizado de Camós. Nesta época, ainda bastante restritos à instrumentação convencional, batizávamos os instrumentos com nomes de divindades.

Em sua homenagem (do órgão e do touro) gravamos o som Salve Camós. Quase 30 minutos de um tormento sonoro extremamente mal tocado e quase inaudível, ou seja, lindo. O som ficou dormente na gigantesca biblioteca de gravações até ser acordado em 2009.

É comum acontecer de um som ser tão marcante que acabamos por promovê-lo a disco. Ou às vezes o som é descartável mas o título é bom e se torna um novo disco. Isso nos leva a crer que, em alguns anos, superaremos facilmente a centena de álbuns lançados. Rapidamente ficou claro que deveria haver um álbum em homenagem ao touro crematório. Nascia Salve Camós, depois rebatizado para a grafia mais comum, Salve Chemosh.

Não entendam mal, não somos a favor do sacrifício de bebês. Optamos por essa temática por ter o estudo das religiões e deuses como um passatempo, um hobby, que acaba gerando frutos sonoros.

Eu mandaria para o forno de Camós alguns pais de classe média, isso sim. Aqueles que, por preguiça e/ou incapacidade, renunciam ao dever de colocar limites nas crias e acabam cavalgados e cortados de espora pelos próprios filhos. Poucas coisas são mais deprimentes do que um adulto curvado diante das vontades de um moleque de 5 anos de idade.

Vamos ao som:

O disco abre com Felizes Para Sempre, a nossa interpretação toda particular da Marcha Nupcial, em homenagem à cerimônia que, em um plano estritamente teórico, precede a concepção.

Eclipse foi gravada em noite de eclipse lunar, e mesmo fazendo parte da mesmice sonora que dominou a banda nesse período, tem seus momentos.

Em homenagem aos guerreiros da música erudita, a Orquestra de câmara microfonal: cellos sintetizados e pedal de delay, é claro.

Chegamos ao clímax. Em Salve Camós, tentamos recriar o ambiente da ilustração da capa. Todos estão presentes: Camós, os ofertantes, e as oferendas. Acreditamos que o resultado final ficou assaz digno. O som foi compactado para 4 minutos utilizando as técnicas já amadurecidas de cirurgia de ondas sonoras.

Aliás, a técnica virou som: Sound Wave Surgery.

MEDOMUDOECOOCOEMMIEU é um poema do Phaneroscopia sonorizado com altas doses de delay.

Fúria traz uma rápida mistura de bateria, guitarra, sax e congas, gravada como aquecimento antes de começar a sessão. Na época, colocamos para download na versão antiga do site e ganhou até uma fã, que escreveu para a banda comentando sobre como tinha adorado Fúria, especialmente “a bateria que tenta acertar o tempo e não consegue nunca”.

Em Só Lembrança, uma participação inusitada e inesperada de um dos pilares do brega, Bartô Galeno.

Fornalha é uma vinheta de 1 minuto que aquece o forno para A Vitória em Meggido, onde brincamos com mudanças de pitch. Quem vai vencer? Como disse John Milton, depende de quem escreveu o script…

Não deixem de conferir a contracapa, com uma citação que mostra quem realmente era chegado em abater infantes.

Acenda o forno e faça o download.

Pouco depois deste disco, um novo cisma se abateu sobre a banda, sinalizando mudanças profundas.

Querubim Girafa

Querubim Girafa

Na manhã de 11 de setembro de 2001, eu estava no trabalho quando alguém informou sobre um avião que colidira com uma das torres do World Trade Center. O resto, todo mundo já sabe.

Só não sabem dos desdobramentos naquele saudoso local de trabalho. No clima de perplexidade e especulação que tomou conta de praticamente todos os escritórios do mundo, os mais crédulos começaram com a palhaçada habitual: seria o prenúncio da Terceira Guerra Mundial? Seria o fim do mundo?

Divertido com a situação, o Profeta DigiTao, recém-chegado àquelas paragens, trata de dar corda às mocinhas assustadas e sugere a possibilidade de Deus retornar em breve na forma de uma Girafa. Nos rostos, aquela expressão de quem não acredita no que acabou de ouvir . “E por acaso vocês sabem qual a forma de Deus? Não poderia ser uma girafa?”. Ao mesmo tempo em que assistia a essa cena única, eu pensava em como aquilo fazia sentido. Depois desse dia, nunca mais consegui ver Deus da mesma maneira.

Um belo dia, cinco anos depois, eis que estávamos no Shopping Market Place almoçando, quando divisamos no teto, junto às estruturas metálicas, um resquício de enfeites de Natal/Ano Novo/ Dia das Crianças ou sei lá o que. Era uma girafa de papel. Imediatamente retomamos o cenário do 11/09 e aperfeiçoamos ali mesmo a visão: uma divindade cercada de hostes de querubins em formato de girafas, cantando HOSANA. Estava criado o Querubim Girafa.

Querubim no Market Place
A visão consubstanciada em papel

Para encurtar a história: como o mundo não acabou, decidimos lançar o disco.

A faixa-título é uma tentativa quase desastrosa de emular A Queima das Almas, do álbum Nação.

(       ) é uma vinheta que inicia de forma tensa e sofre uma ruptura violenta, tornando-se confusa e sem qualquer resolução. Perfeita para apresentar a faixa seguinte:

Despreparo começa com um piano em arritmia e passa a maior parte do tempo com bateria e teclado sendo perturbados por um dial de FM. Precisa ser ouvida até o fim para que se entenda o título e a revelação decorrente. Persevere, reflita na mensagem final e colherá a recompensa. É uma das minhas composições favoritas.

Fluido Elétrico: pequeno fragmento microfonal com baixo em delay.

Fluido Magnético:  pecussão generalizada, incluindo o mesmo aquafone utilizado em Desmúsica. Percussão com delay fica bem interessante, perturba bastante a noção de ritmo. Aqui começam as experiências com ataques de micro-blastbeats. O baixo, como acontecia com uma frequência angustiante, se mostra completamente alheio ao que ocorre ao redor.

Da arte de ouvir Coleman Hawkins é um exemplo do que acontece quando se mistura uma frase de teclado repetida à exaustão, software de emulação de sintetizadores e tempo livre. Audição difícil até mesmo para uma girafa.

Bacante é free jazz acrescido de cordas de guitarra. A ausência do baixo deve-se ao fato do baixista estar nas cordas.

A Hora da Estrela não é Clarice, e sim uma ode à Estrela da Manhã. De vez em quando gostamos de exercitar a veia black metal. Com delay, é óbvio.

Para deleite dos fãs, o álbum fecha com um microfonal: Por Arbor. Se, a esta altura, você ainda não concluiu que somos fãs de Flash Gordon, é porque não assistiu. Assista.

E faça o download do Querubim.

Após o Querubim, prosseguimos nessa temática de divindades, porém com uma pequena mudança: ao invés de girafa, um touro. Ao invés de nuvens macias, fogo.

Ontem foi dia de vitória brasileira nas pistas. Americanas, claro.

Segunda vitória de Bia Figueiredo na Indy Lights. E dessa vez com direito a uma história de superação. Em Indianápolis ela sofreu um acidente sério e ficou de fora da prova. Na corrida seguinte, em Milwaukee, ficou de fora por falta de patrocínio.

Ontem, em Iowa, deixou claro que vale o investimento, como mostra a foto abaixo.

Bia em Iowa
Seu anúncio aqui

Questão de tempo até estar correndo na principal categoria do automobilismo. Sim, porque lá na Europa a coisa tá feia e a categoria top está prestes a ser rachada ao meio. A Indy já passou por isso e sabe que não vale a pena, uma das duas morre no processo.

Falando nisso, de manhã foi uma luta difícil para não dormir na despedida de Silverstone…

Está divertido acompanhar o pranto e o ranger de dentes nas redações, depois da queda de uma aberração que só existia no Brasil: a exigência de curso superior para a profissão de jornalista. No resto do planeta, é profissão que se exerce munido de cultura e domínio do idioma. Aqui, bastava um pergaminho que atestava que o sujeito passou 4 anos sentado em uma cadeira ouvindo pregação ideológica.

A gritaria tem motivo simples: ao cair a exigência do diploma, o mercado se torna bem maior, e ninguém quer mais competição. Todo mundo quer é uma reservinha de mercado (e, se possível, um atestado médico antes do feriadão). Pela mesmíssima razão, Fernanda Montenegro foi chorar em Brasília quando o pessoal do esporte e a IURD decidiram que também queriam mamar na Lei Rouanet, aquela mesma que Caetano vai sugar copiosamente.

Ignorância diplomada

Há coisa de 4 anos freqüentei por alguns meses uma faculdade particular de administração de empresas. Havia uma disciplina com o pomposo título de Português Instrumental, que nada mais era do que aula de língua portuguesa em compactação máxima. Depois de algumas semanas percebi a razão da existência da cadeira: o nível do português de 90% da turma era pior do que o da minha classe do ensino primário na década de 80. Alguns exercícios eram resolvidos por no máximo 4 pessoas em uma turma de uns 40. O resto parecia estar lendo algo escrito em mandarim.

Fico me perguntando: o nível dos alunos de jornalismo será muito melhor que isso? Nessa hora me lembro dos índices de aprovação nos exames da OAB.

Para atestar a qualidade do jornalismo diplomado, pela terceira vez sou obrigado a recomendar a leitura de Como Ler Jornais, onde Janer Cristaldo desfila um rol de atrocidades culturais cometidas por jornalistas com canudo. Pensando bem, leia logo o próprio blog do autor, que está nadando de braçada ao relatar sua saga em universidades inúteis e bares bem mais úteis, além de acompanhar os lamúrios dos figurões do colunismo.

E,  por falar neles, não custa relembrar que foi o nosso jornalismo diplomado e varonil que arrebentou a cara ao cobrir o caso da brasileira que forjou o ataque neonazista na Suíça.

Jornalistas diplomados estão chorando. Blogueiros estão rindo.

Quer rir mais? Confira as mancadas das redações dos grandes portais. E reveja – ou conheça – o caso em que o Jornal de Uberaba (Credibilidade Total!) caiu em um experimento que, na intenção de revelar a credulidade do público em geral, atirou no que viu e acertou também o que não viu.

Desencanto

Assim como o almirante Kirk voltou ao passado para salvar As Baleias e evitar que a profecia de Roberto Carlos se concretizasse, voltemos ao ano da graça de Vosso Senhor de 2003.

Após MESA seguimos na mesma dinâmica de gravações e ensaios, porém a sintonia existente começava a se deteriorar. Íamos nos perdendo pouco a pouco na execução e criando massas sonoras homogêneas demais até para os nossos ouvidos. O resultado é som repetitivo e cansativo.

Isso deveria ser lançado? Que pergunta. Claro que sim! Bastava aplicar a técnica de Sound Wave Surgery e estava cunhado o álbum Desencanto, misto de influência da Cultura Racional e dos bonecos de leite em pó e açúcar da doceria Paiol, situada no bairro do Brooklin e recomendada a todos (os outros doces, não os bonecos, que são intragáveis).

Desencanto

Desencanto é exatamente isso: desilusão. Som de difícil audibilidade, em muitos momentos até mesmo para nós. Para o ouvinte, eu diria que é quase uma provação.

O que não impediu a criação de momentos únicos, como a faixa (quase) título, que brinca com sílabas e tempos de 10 pulsos. Ou o Trompete só(l)-kratico, onde um antigo trompete recebe doses pesadas de delay. Sem falar no Poema

Baixe e ouça. Eu sei que você é capaz!

Nessa época começava se consolidar nas nuvens a visão de um deus, que descia do firmamento guarnecido por hostes de girafas celestiais…

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