A inesquecÃvel visita a Damião Experiença
Dec 28th, 2008
Este post é continuação de Damião Experiença e o Planeta Lamma.

Menos de dois anos após o lançamento do Portão, uma viagem se fazia cada vez mais imperativa: precisávamos conhecer Damião. Contatos com um jornalista carioca que o conhecia nos deram um endereço em Ipanema. Decidimos então fazer um bate e volta: pegar uma ponte aérea bem cedo e voltar no mesmo dia. Assim, no sábado, 17 de janeiro de 2004, decolávamos rumo ao Rio.
Descendo no Santos Dumont, tomamos um táxi rumo ao endereço. Ao chegar próximo ao prédio, um susto: lá estava ele botando o lixo pra fora. Descemos apressados e nos aproximamos, exclamando: “Damião Experiença!”. Ao que ele, sem se voltar, respondeu: “Praneta Lamma!”. Então se voltou e nos apresentamos como fãs vindos de São Paulo especialmente para conhecer o Damião. Estava travado o primeiro contato.
Então ele nos convidou para ir até sua casa. Era um prédio comum de apartamentos, no número 4C. O apartamento, no 13º andar: 1308. Quem conhece a obra damiônica sabe que os números 4C 1308 são recorrentes. É o tÃtulo do 3º disco, que à s vezes aparecia misteriosamente como 4C 308. Ao chegar à porta de entrada, descobrimos porquê: o número 1 havia caÃdo, e Damião, ao invés de consertar, decidiu que a referência ao número de seu apartamento mudaria para 308…
Damião conhece o Portão
Levamos um notebook com as páginas do site, e mostramos ao Damião. Explicamos o que é a internet, que pessoas do mundo todo podiam ver aquelas páginas e ouvir a música. Ele entendeu e gostou de saber que a sua obra estava sendo divulgada de forma livre. Estava visivelmente emocionado. Mostramos nosso som, na linha free jazz, ele ouviu e comentou: “Isso é experimental”. Damião conhece música.
Mencionamos o japonês que queria lançá-lo no Japão, ele não quis saber. Se mostrou avesso a qualquer contrato assinado. Pelo jeito, já foi explorado no passado. Disse que sua música pertencia “ao universo” e nos autorizou a oferecer toda a sua obra gratuitamente para o mundo, através do site.
O momento mais impressionante foi quando ele cantou no dialeto, exatamente como nos discos, sem qualquer diferença. Ficamos com a impressão de que ele realmente conhece o dialeto e reproduz o que gravou quando quiser.
O pensamento damiônico
Quando começamos a conversar, aà a coisa complicou: Damião fala sem parar e se repete de forma interminável, voltando ao mesmo assunto 3, 4 vezes. Em dado momento, se disse judeu. Cinco minutos depois começou a elogiar Hitler. Nos mostrou uma foto onde se via um táxi carioca (amarelo com uma faixa azul) e disse: “Sou eu em Londres”. Ali começava a ficar claro que seria difÃcil obter respostas precisas do próprio Damião.
Mas se engana quem acha que ele é maluco. Sua lucidez espanta. Quando o assunto passou para a polÃtica, ele se referiu a Marta Suplicy, prefeita de São Paulo na época, e disse coisas impublicáveis sobre ela, o marido e o filho famoso. Perguntado se preferia a ditadura, respondeu sem pestanejar – meio alterado até – que preferia sim, que naquela época se vivia em paz e com segurança e que hoje o paÃs virou um campo de extermÃnio, que “qualquer um sobe o morro e mata com a BÃblia na mão”.
Então perguntamos sobre Cuba, o que ele achava de Cuba, já que na sua música Cuba e Fidel são constantemente exaltados nas letras (“eu quero ir para Havana, plantar cana e encontrar uma menina cubana”, “volta Getúlio Vargas, pra se encontrar com Fidel Castro, homem democrático”). Damião dá uma risada meio amarela e responde: “As coisas que a gente fala quando é jovem”. Surpresa! Damião hoje tem plena consciência do que é realmente Cuba, coisa que Chico Buarque ainda finge que não vê… Que coisa, hein?
Perguntamos se ele iria ao programa do Jô, nessa hora ele se irritou um pouco e disse que jamais iria, que o Jô fica pegando no braço dos outros, que ele não seria ridicularizado. Bingo! Damião sabe exatamente o que aconteceria se fosse ao Jô ou a uma Luciana Gimenez da vida: seria tratado como aberração.
E a conversa foi por vários caminhos. Nos confirmou sua tese de que a melhor mulher é a lésbica, afinal “se você casa com mulher normal, chega em casa e encontra homem, se casa com mulher lésbica, chega em casa e encontra mais mulher”. Na mosca! Perguntado sobre mulher virgem – outra de suas obsessões – mandou na lata: “Se você casa com mulher que não é virgem, então você já é corno!”. Como contestar essa lógica?
E assim transcorreu um dia inteiro, um dia meio surreal, passado em outra dimensão. No apartamento, em que Damião junta tralhas a ponto de não se poder andar entre os cômodos, encontramos uma improvável cópia em laser disc do show Raising Hell, do Iron Maiden. Muitos discos. Ganhamos vários de presente, que ainda não tÃnhamos, quase completando a discografia.
O retorno e o novo Portão
Almoçamos com o Damião em um boteco, nos despedimos e voltamos para o Santos Dumont. No táxi, não conseguÃamos quase falar, pairava um clima de perplexidade, tipo: “o que foi que aconteceu?”. Só de volta a São Paulo começamos a recapitular a viagem e ouvir os discos. Ganhamos inclusive o mais importante, o primeiro disco gravado por Damião, Planeta Lamma, de 1974, inteiramente cantado no dialeto.
A partir dali decidimos reformular o site, criar uma versão colorida e atualizada. Mudamos também o texto, que na primeira versão estava um pouco jocoso, ainda influenciado pela mitologia em torno a Damião. Depois de conhecê-lo passamos a respeitá-lo muito mais e decidimos que o site, sem perder seu caráter damiônico, deveria ter o texto revisto. Disponibilizamos de imediato o álbum Planeta Lamma em mp3, e fomos acrescentando outros, dentro dos limites da hospedagem.
Agora, em nova hospedagem sem limitações, estamos prestes a disponibilizar todo o nosso material, que compreende perto de 80% da discografia. O resto, ainda estamos procurando.
Se você quiser conhecer o Damião, procure na praça General Osório, em Ipanema. Ele está sempre por lá e os comerciantes locais o conhecem. Mas não vá com a curiosidade de quem quer conhecer “o doidão que eu vi no blog”, porque ele vai perceber isso de imediato. Damião tem ojeriza a repórteres e curiosos, não dá entrevista. Uma vez um repórter tentou falar com ele e ele só foi abrir a boca depois de 10 minutos, cantarolando no dialeto. Se você for um fã que quer realmente conhecê-lo, talvez ele fale com você. Apenas trate-o como você gostaria de ser tratado.
Se quiser conhecer o que se sabe sobre Damião, visite o Portão do Daminhão. Leia a biografia e o FAQ, percorra a discografia, faça download das músicas e das fotos, leia o livro escrito por ele, veja o que a mÃdia diz sobre Damião, conheça bandas influenciadas por sua obra, e, por fim, damione-se: leia e assine o guestbook, o Livrão do Daminhão.
Sinafram Hamalai !!!
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