Aqui não tem festa do chá
Oct 16th, 2007
Aumento de impostos costuma acabar mal. Nas colônias americanas um imposto britânico sobre o chá acabou tão mal que desencadeou a independência do paÃs.
Por aqui o imposto sobre o ouro só gerou uma tentativa de inconfidência que no máximo criou uma espécie de Jesus brasileiro, com direito a traidor e tudo.
Indiferença
Brasileiro não liga. Parece que gosta de pagar imposto. Considera algo inevitável, como respirar. Inevitável de fato é, mas pode-se (e deve-se) tentar sempre pagar menos.
Menos por aqui. Se alguém tenta meios legÃtimos de pagar menos imposto, como a contratação por Pessoa JurÃdica, a pelegada sindical cai matando e taxando de sonegador.
Outro dia o excelentÃssimo deputado Ciro Gomes inovou ao dizer que protestar contra a CPMF era coisa de “branco que não gosta de pagar imposto”. Além de pecado, lutar por menos impostos agora é traço étnico indesejável.
Anhangabaú não é o Galo da Madrugada
Hoje aconteceu no Vale do Anhangabaú o Tributo contra o Tributo, um show que pretendia reunir 2 milhões de pessoas em protesto contra a CPMF. A megalomania foi longe: nem o Galo da Madrugada reúne tanta gente. Amargaram o fracasso de 15.000 presentes.
A organização foi da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o que já pode ser considerado o primeiro erro: no Brasil, empresário é visto como inimigo do povo e portador de algum mal contagioso. Levando-se em conta a indiferença do brasileiro em relação a impostos, a divulgação deveria ter sido muito, muito maior. Nem mesmo atrações como Zezé di Carmargo e Luciano atrairam público.
Falando neles, quem diria, hein? Os dois cabos eleitorais de Sua Excelência agora viraram inimigos. Vejam a declaração de Luciano:
“Uma pessoa que fala que isso aqui [o show] não está indo contra o governo Lula é uma pessoa idiota. Se o governo Lula quer prorrogar a CPMF até 2011, e isso é um movimento contra a CPMF, então é um movimento contra o governo Lula”
Pirateia o filme deles, presidente!
CPM o quê?
Não adianta, aqui nunca vai haver uma festa do chá. O povo sequer sabe o que é CPMF. Muita gente confessou à reportagem da Folha que foi mesmo é para ver os artistas. Uma dona de casa afirmou que era um imposto sobre o pão e o leite. Nem o William Bonner falar “imposto do cheque” adianta. Talvez se fosse tema de novela. Mas não é só o povão não:
Alguns dos artistas convidados não tinham domÃnio sobre o tema que pretendiam protestar. O vocalista da banda Fresno, Lucas Silveira, disse que não sabia quanto pagava de CPMF ao ano. “Graças a Deus eu não sei, porque se soubesse estaria mais bravo ainda”, disse. Questionado sobre o percentual da alÃquota da CPMF, Lucas respondeu: “São 7%. É isso? Não tenho idéia”. A alÃquota é de 0,38%.
O sujeito estava bravo pelo que achava ser 7% e disse que ficaria mais bravo ainda por… 0,38%? Deve ter achado é bom. Fica aà uma demonstração do intelecto emo.
O próprio Luciano não sabia qual a alÃquota. Nem eu sabia. Jurava que era 0,33%.
Brasileiro adora mesmo pagar imposto.
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