Berlusconi desce ao fundo do poço
Feb 10th, 2009
Em alguns assuntos, minha opinião costuma se alinhar com o que se convencionou chamar de pensamento de direita. Sou contra, por exemplo, a tentativa de justificar a criminalidade com a pobreza e repudio a idéia de que “fome pode justificar assassinato em semáforo”.
Já em outros assuntos, acontece exatamente o oposto: vou para o lado esquerdo – não o lado esquerdo tosco que idolatra o Che, mas aquele que se opõe a formas nocivas de conservadorismo, como o religioso. Um exemplo: pesquisas com células-tronco. Outro, bem atual: o caso da italiana Eluana Englaro.
É bastante simples: como não reconheço sequer a existência da divindade que evocam para tentar proibir o desligamento dos aparelhos, não reconheço a legitimidade dessa argumentação. Nesse caso defendo a mesma abordagem que defendi no caso das pesquisas com células-tronco: os seguidores de Lord Bento XVI são contra por razões morais? Pois que não façam. Daà a tentar proibir que os não-cristãos decidam de forma diferente, vai um caminho longo e tortuoso que passa pela tentação de reunir igreja e estado (isso se de fato chegaram a se separar algum dia).
Que o Vaticano e seus seguidores sustentem que a decisão sobre a vida é prerrogativa do tal Jeová, tudo bem. Mas quando essa argumentação é acrescida de justificativas sórdidas como a que vai abaixo, aà não dá para considerar como sendo coisa séria.
O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, em uma tentativa torpe e desesperada de argumentar, afirmou que Eluana deveria ser preservada “por estar ainda em condições de ter filhos”…
É ou não é de embrulhar o estômago? Estômago, aliás, que mal se refez do episódio em que Estevam Hernandes celebrou a morte de 9 pessoas. Quando se quer viver, derrubam o céu sobre nossas cabeças. Quando se quer morrer, evocam uma tal “santidade da vida”, ainda que vegetativa.
O que o primeiro-ministro pretendia exatamente? Penetrar a infeliz? Em estocadas firmes, sucessivas e conservadoras, ejaculando espermatozóides católicos e justos? Injetar embriões sem o consentimento da futura gestante? Chamar o anjo Gabriel?
E as mulheres que já não são férteis? Valem menos?
Por mais nojenta que fosse, essa justificativa de nada valeu, pois Eluana morreu ontem. À famÃlia, que aqui ficou, resta lidar com o agouro dos abutres clericais e polÃticos.
Assinar por email: