Caça às bruxas nos EUA. Literalmente.
Jan 31st, 2009
Essa história aconteceu em 2000 e rendeu até filme para a TV. Foi publicada ontem no blog Pharyngula como sendo notícia nova, o que foi logo corrigido pelos leitores. Mas poderia perfeitamente ter acontecido ontem, sendo igualmente sintomática.
Foi pouco depois do massacre de Columbine, quando a paranóia de segurança escolar estava a todo vapor. Eis que uma escola pública em Oklahoma, EUA, decide suspender uma estudante de 15 anos por praticar bruxaria para fazer com que um dos professores adoecesse.
Leia de novo.
Estamos no ano da graça de Vosso Senhor de 2000, entrando no século XXI. Isso não deveria acontecer, não é? Mas estamos falando do Bible Belt, o Cinturão da Bíblia. Uma área no sul/sudeste do país onde, pelo jeito, os séculos não passam.
Brandi Blackbear, a menina em questão, tinha o feio hábito de escrever histórias de terror, usar um visual meio gótico e encarar os bullies (aqueles caras truculentos que ficam apavorando os nerds e que depois morrem cheios de chumbo na cabeça sem saber porque). Alguns colegas a viram lendo um livro sobre Wicca e começaram a acusá-la de praticar bruxaria. Dada a animosidade que já se formava em torno a ela, a coisa foi crescendo e terminou em suspensão. Mal dá para imaginar o tamanho da discriminação sofrida. Se há um ambiente onde é imperdoável desviar um milímetro do comportamento padrão do rebanho, esse é o ambiente escolar. Pelo jeito não aprenderam nada com Columbine, vide o caso do coreano na Virginia Tech.
Em seu socorro veio a ACLU (a organização americana de liberdades civis), o grande satã da Nova Era, na visão dos conservadores. A forma de reação? A mais americana possível, um processo judicial por violação de direitos civis. Não funcionou. O juiz deu ganho de causa à escola. Um magistrado visionário, sem dúvida, antecipando em sua sentença as medidas de restrição de liberdades do governo Bush em nome da “segurança”.
A Wicca é um culto pagão tão perigoso quanto a disposição de cada um para acreditar em amigos – e inimigos – imaginários.
Eu não entendo como um país que investe tanto na pesquisa tecnológica pode, ao mesmo tempo, abrigar tanta obscuridade. Qual a real diferença entre o conservadorismo americano e o fundamentalismo islâmico? A violência, talvez? Em larga escala pode ser, mas há relatos de médicos assassinados por militantes anti-aborto (os supostos defensores da vida). Que fique claro que não estou defendendo o fundamentalismo islâmico, e sim condenando ambas as partes. Red necks caçadores de bruxas podem ser tão nocivos quanto homens-bomba.
Quando a gente vê notícias de organizações ateístas lutando na justiça para remover crucifixos de prédios públicos, pode até achar que é exagero. Mas será mesmo? Ao saber de casos como esse, vejo que não. Parece que a separação entre igreja e estado ainda não aconteceu de fato. Pelo menos não na cabeça de muitos legisladores e juízes.
Obama pode até ter incluído os non-believers em seu discurso. Mas, por via das dúvidas, não deixou de jurar com a mão na Bíblia. Longo é o caminho a ser percorrido até o laicismo verdadeiro.
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