Excomunhão e Obsolescência
Mar 12th, 2009
Damião Experiença, em sua infinita sabedoria, diz em uma de suas letras: “Quem tem Deus no coração, não precisa de intermediário para falar com ele não”.
Eis a verdadeira natureza do clero: intermediários, atravessadores, burocratas. O tipo de gente que só atrapalha. Se o fiel fala diretamente com a divindade, qual a real utilidade do clérigo? Servir sangue e carne na bandeja?
Isso ficou evidente no caso do arcebispo de Recife e Olinda. Sim, ele agiu em perfeita coerência com os dogmas católicos. Aliás, nem agiu, já que a excomunhão nesse caso é automática. Apenas comunicou o fato, de forma desastrada e sem qualquer sutileza. Compulsiva até.
Só tem um problema: o catolicismo puro, como foi concebido, é uma fantasia. Pertence ao plano teórico tanto quanto as supercordas da física. Ninguém pratica o que Roma determina na sua totalidade. Nem o Reinaldo Azevedo, talvez o maior carola do país, que já declarou ser contrário à manutenção do celibato. Tudo é passível de revisão, e é isso o que a igreja faz o tempo todo.
Caso você – que costuma degustar a bolacha consagrada – não saiba, a palavra católico significa literalmente universal. Mas como levar a sério um código que se pretende a verdade universal e que muda mais que a legislação brasileira de previdência privada ou as nuvens no céu? A Igreja Católica é exímia na arte de aplicar corretivo em seus textos, concílio após concílio. Como já comentei, a própria definição de quando a vida se inicia só foi fechada no século XIX. Não é um pouco tardio para uma organização de 20 séculos?
Quem defende que se siga o cânone à risca está também defendendo que o evangélico ou o judeu apedrejem e matem adúlteros e blasfemos, pois está escrito. E o Levítico é a lei. Ou não é?
Este episódio serviu para evidenciar a nulidade que é a excomunhão e o quanto a influência do clero vem perdendo força: os médicos da equipe que foram afetados já garantiram que nem sua fé nem sua prática médica sofrerão qualquer mudança. Em outras palavras, dispensam o intermediário. A fé não apenas não necessita do intermediário, como não pode existir senão de forma individual e subjetiva. O clérigo se torna obsoleto, como a máquina de datilografar ou o monitor de fósforo verde.
O clero só persiste até hoje porque Saulo foi um tremendo marketeiro – Hernandes teve a quem puxar – e os rituais têm a capacidade de unir. Mas os rituais católicos vão se diluíndo em padres cantores, padres até com apelo sexual como o tal Fábio Melo, flertes com o pentecostalismo e com o marxismo. Conforme os rituais vão se descentralizando, a organização de Lord Benedict XVI vai lentamente perdendo a influência. Mais do que influência, vai perdendo a relevância. Daí o esforço desesperado para tentar manter a unidade.
Pouco a pouco os fiéis vão seguindo o conselho damiônico e deixando o atravessador de lado. O que no passado foi o poder absoluto hoje caminha de forma inexorável para a obsolescência. O final dessa história, se tudo correr normalmente, deve ser a extinção. Pena que não estaremos vivos para ver.
Assinar por email: