Juazeiro do Norte: a Meca do sertão
Jul 20th, 2007
Meca é a cidade natal do profeta Mohammed e cidade santa do Islã (21º25′20.59″N 39º49′33.70″E).
A palavra meca, em português e em inglês (mecca) significa “lugar para onde afluem pessoas por motivos especÃficos”. Assim, Indianápolis é a meca do automobilismo (ou Silverstone, dependendo do ponto de vista), o Vale do SilÃcio é a meca da tecnologia, etc.
Só que Juazeiro do Norte é literalmente a Meca brasileira.
Estive lá em junho, na formatura da minha namorada na faculdade de medicina recém-criada (FMJ). Não conhecia a cidade, só ouvia falar no Padre CÃcero e nas romarias. Mas não imaginava que a presença do padim dominasse a cidade por completo.
Pra começar, qualquer loja do comércio local ostenta uma imagem do padre, incluÃndo o Cariri Shopping. Entrou em uma lojinha, está lá a indefectÃvel imagem no balcão. As maiores ficam direto no chão. A do shopping é quase em tamanho natural.
Passeando pela cidade, você trafega pela Avenida Padre CÃcero, pela Rua Padre CÃcero, passa pela Ótica Padre CÃcero, pela pousada Padre CÃcero, pela loja Padre CÃcero disso e daquilo, e ainda pode deixar seu carro no Estacionamento Padre CÃcero. O nome de batismo mais comum entre os meninos da cidade? Uma chance para adivinhar…
A Kaaba
Do centro da cidade avista-se o horto, uma colina que guarda a estátua do Padre CÃcero. Pense no horto como a mesquita que abriga a Kaaba, e na estátua como a própria Kaaba. Não estou falando apenas em sentido figurado: as legiões de romeiros que duplicam a população da cidade durante as romarias dão voltas em torno da estátua e a tocam.
Ao lado da estátua, o museu que abriga réplicas em tamanho natural do padre e as tradicionais oferendas por graças alcançadas, bastante semelhante a Aparecida.
A visita à estátua pode ser feita por uma estrada ou subindo o horto à pé, no caso de promessas. Para o turista há o inconveniente das crianças que cercam o carro no estacionamento como um enxame de abelhas, pedindo qualquer coisa e, em troca, recitando a história do padre mecanicamente. No caminho entre o estacionamento e a estátua, mulheres sentadas mendigam e xingam os que nada dão. Religião é meio de vida, já dizia Damião. Chegando à estátua é a vez de ser abordado por vários fotógrafos, que se oferecem para tirar a tradicional foto em que a perspectiva faz com que o padim pouse a mão na sua cabeça. Há também a foto segurando a mão. São tiradas e impressas na hora.
A Hajj e o santo clandestino
As romarias mais que duplicam a população da cidade, e são várias as pousadas para abrigar esse contingente. A semelhança com a Hajj, a peregrinação muçulmana a Meca, é grande. Pelo menos nesse caso não há o componente do fanatismo e você não será chamado de infiel por não ser devoto. Só não invente de criticar o padim enquanto estiver em solo sagrado.
O mais impressionante nisso tudo é que o Padre CÃcero não apenas não é reconhecido como santo por Roma como foi excomungado. E em muitas lojas da cidade você pode encontrar a estátua dele no balcão e nem sinal de uma miniatura da Nova Maravilha do Mundo Moderno. Pode-se falar em uma religião paralela. Até o vice-deus Bento XVI já viu que não dá pra combater esse culto e está considerando rever a posição oficial a respeito.
A cidade, que são três
Juazeiro é uma cidade agradável para se visitar. O único inconveniente é a infestação de motos no trânsito local. O shopping é pequeno mas dá conta do movimento. No centro existe uma cópia da Rua 25 de Março (rua de comércio popular de São Paulo, infestada de gente, onde você pode comprar tudo por 1,99 enquanto “menores desfavorecidos” lhe arrancam carteira e pacotes em plena luz do dia), mas cuidado que os vendedores praticamente voam no pescoço das vÃtimas, ou melhor, compradores em potencial. O aeroporto é bom e conta com vôos da GOL e da Ocean Air.
Em Juazeiro encontra-se a legÃtima CajuÃna São Geraldo. Trata-se de uma espécie de tubaÃna de caju. Não sabe o que é tubaÃna? É o próprio sabor do interior paulista.
Se você é apreciador de música, prepare-se para ser torturado: Juazeiro, bem como quase todo o Nordeste, foi tomada de assalto pela nova armação musical: aquilo que pode ser chamado de forró pop, o equivalente atual do (felizmente) já moribundo pagode. Como costuma acontecer nesses casos, não tem absolutamente nada a ver como o termo forró, da mesma forma que a trilha sonora do tráfico no Rio apenas insulta os fãs de James Brown. Se procurar bem, talvez ache algum lugar que toque o verdadeiro forró. Justiça seja feita, no hotel durante o café da manhã fui surpreendido por uma rádio que tocava Gilliard, Rosana, Dalto e outros Ãcones do legÃtimo brega oitentista. Mas é só 1 horinha, no mais você não consegue escapar do bombardeio de nomes como Aviões do Forró, Cavaleiros do Forró, Calcinha Preta e outras aberrações.
A região de Juazeiro é formada ainda pelas cidades de Barbalha e Crato. Em Barbalha está o lendário Pau de Santo Antônio, o último recurso de solteiras desesperadas. Ao pegar no pau, o casamento acontece em no máximo 1 ano. Pra garantir, escreve-se o nome a caneta no próprio tronco.
Crato é a terra natal do padim.
Fotos da viagem neste set do Flickr.
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[...] a eleição fosse no Ceará, o Cristo não pegava nem [...]
Boa tarde
Caro Ronaldo, pelo que là apreciaste muito a cidade de Juazeiro do Norte, ainda mais a enaltecer o nome do religiodo CÃcero…
Contudo saiba que por detrás do seu nome existe uma enorme camuflagem que o povo e a igreja alimentam, em outra volta pela região procura se inteirar sobre o nome real de tal religioso.Quanto as mazelas sociais daqui, nem o religioso, mistico há de solucionar; apenas a atuação dos homens.
Agradecido
Gostei do seu relato. Bem humorado. Sou paulistana e escolhi o Cariri para morar há dois anos. Demorou para eu conseguir andar em Juazeiro sem sentir dor de cabeça!
Boa comparação com Meca!
abraços
Muito interessante este blog!!!
o Ronaldo é muito inteligente, e atualizado, e tem bom gosto indiscutivel!!!
Parabens Ronaldo
[...] deixou um comentário no meu post sobre Juazeiro do Norte ontem, lembra? Pois é, eu tive que editar alguns dados antes de liberar o comentário. Você [...]
Mariana: tenho saudade da cajuÃna São Geraldo. Minha banda até colocou ela na capa de um disco, que deve sair semana que vem.
Sóstenes: grato pelos elogios. Seu site está com a segurança comprometida, cuidado! Fiz um post sobre isso:
http://www.ronaldocamacho.com.br/recado-para-o-sostenes/