Bento 16 não é bobo. Sabendo que sua empresa está perdendo mercado de forma rápida, ele percebeu a necessidade de tentar um acordo com a concorrência.
Assim, logo depois de condenar o materialismo do mundo ocidental por ocasião da crise econômica (do seu confortável palácio romano com direito a pensão completa), tratou de se reunir com físicos para tentar passar aquela conversinha de que “não há contradição entre acreditar em Deus e na ciência”. A idéia é tentar se aproximar de cientistas e entusiastas da ciência sem ter que confrontar a teoria da evolução. É aquela manjada explicação de que “a teoria da evolução é o mecanismo que Deus usou para criar o universo”. Bem mais sutil e eficaz do que o “Deus colocou ossos de dinossauros embaixo da terra para testar a nossa fé” do fundamentalismo cristão americano.
Vamos lá. Em primeiro lugar, qual Deus? Sim, porque a lista de candidatos é imensa. Temos Javé, Shiva, Kali, Zeus, Tupã, Allah, Odin, Tutatis, Osíris, Ganesha, INRI Cristo, Camós, Anúbis, Marduk, Racional Superior, Ishtar, Gadak e por aí vai.
Segundo: se Bento “liberou geral” a interpretação do texto bíblico, admitindo que a criação é uma alegoria, então por que Javé e o inimigo não poderiam ser eles próprios alegorias?
Já começa a complicar. O problema é que ciência é fazer perguntas, fé é não querer buscar respostas. São incompatíveis por definição. Ainda que haja uma entidade criadora, não há qualquer evidência de que se trate do genocida ensandecido pai severo do Antigo Testamento. Marduk, por exemplo (com ele o lúpulo e a glória), discordaria.
Continuando, Lord Jessel disse:
Não há oposição entre o entendimento pela fé e a prova da ciência empírica. Galileu viu a natureza como um livro cujo o autor é Deus.
Com todo o (pouco) respeito, a única coisa que Galileu viu foi isso:

Ele inventou de afirmar que a Terra se movia em torno do Sol e quase pagou com a vida. Teve os livros colocados na lista (que não era exatamente a lista dos mais vendidos). Outros não tiveram tanta sorte: Giordano Bruno assou na fogueira. Séculos depois, em 1992, o finado JP2 se desculpa pelo tratamento dado. Literalmente um “foi mal aí”.
Se ele está falando sério sobre se aproximar da ciência, sugiro que comece promovendo um dos evangelhos apócrifos, o Livro de Enoque, a canônico. Trata-se de um impressionante tratado de astronomia que descreve órbitas, estações do ano e ciclos lunares. Bem mais completo e interessante que o “E Deus criou o Sol para governar o dia e a Lua para governar a noite” do Gênesis. Não é de surpreender que tenha sido excluído.
Darth Benedict ainda teve a pachorra de abençoar Stephen Hawking. Eu acho é que ele tentou o Truque Mental Jedi, que não funcionou pois só afeta mentes fracas.

E ainda estava rindo.
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Excepcional artigo.
Lembrando que um dia, fomos todos católicos.