Música em paralelo I: Receita para o caos sonoro
Feb 5th, 2009
Desde que a música é registrada e copiada em grande escala, uma convenção permanecia intocada: a de ouvir todas as faixas de um LP/CD de forma serial, ou seja, uma de cada vez.
No passado, quando era necessário um hardware próprio para a reprodução (gravador de fitas cassete, vitrola da marca Sonata ou mesmo aquele Energy Gradiente que fazia o robô chorar no comercial), era praticamente inviável a idéia de se reproduzir mais de uma música simultaneamente.
Hoje, com a música digital, essa limitação acabou. Desde que surgiu, o Winamp permite que se habilite a opção de abrir múltiplas instâncias. Isso permite abrir vários Winamps ao mesmo tempo e… executar mais de uma música ao mesmo tempo. Basta entra no menu Options / Preferences, e em General Preferences marcar a opção Allow multiple instances.
As possibilidades são infinitas, limitadas unicamente pela quantidade de memória disponível. Pode-se abrir a mesma música 2 vezes e executá-las com uma fração de segundo de diferença, produzindo um leve eco, tanto maior quanto maior for o intervalo. Pode-se executá-las exatamente no mesmo instante (o que é um pouco mais difícil de se conseguir), produzindo um som mais vigoroso.
E pode-se quebrar o paradigma de vez, ouvindo músicas diferentes ao mesmo tempo. Você pode se perguntar: Por que alguém faria isso? Pergunta errada. Melhor seria perguntar: por que não?
Venho fazendo experiências – e experiênças – sonoras há algum tempo, com resultados bem interessantes. O que segue são alguns resultados obtidos e sugestões para agregar ainda mais valor à sua experiência sonora de usuário, aumentando o valor agregado de sua coleção de música e expandindo a sinergia sônica.
Uma mistura que sempre dá certo é a de várias músicas do mesmo autor, ou do mesmo estilo. Você pode abrir [insira sua música favorita] 9 vezes e executar cada instância em um momento diferente com o modo de repetição ligado, gerando uma experiência ininterrupta: sua música favorita nunca acaba e está sempre em uma parte diferente, ou seja, você está sempre ouvindo a música inteira a cada momento.
Outra possibilidade, essa mais avançada: misturar estilos. Normalmente eu gosto de abrir 7 Winamps com a seguinte configuração:
- Um brega
- Um metal (de preferência com vocal agressivo e bumbo duplo)
- Um clássico
- Um cantor das antigas (Nelson, Vicente ou Waldick)
- Um Damião
- Um Supersimetria, de preferência microfonal
- Um free-jazz
A resultante dessa soma de forças é o caos sonoro. A graça está em ir percebendo nuances de cada som no meio da massa de ondas e freqüências. Você está lá, imerso no caos e, de repente, ouve um verso de Nélson Gonçalves, ou um verso gritado de Adelino, ou uma frase estridente de Kaoru Abe no sax. Frases no dialeto surgem de vez em quando. Em meio a tudo isso, a bateria com pedal duplo e o vocal death metal garantem a continuidade do som.
O screenshot abaixo dá uma idéia de como fica essa configuração no desktop (clique na imagem para ampliar).
Quer ouvir o pavê sonoro acima? Eis duas amostras de 1 minuto cada:
Essa massa sonora acaba funcionando como um excelente isolante acústico, com uma vantagem: não é necessário um volume muito alto. Se você souber misturar bem as freqüências, consegue se isolar do ambiente sem prejudicar (muito) sua própria audição, como por exemplo quando precisar se concentrar no trabalho ou estudo. Se usasse do fone de ouvido com uma única música, seria necessário um volume mais alto para obter o mesmo resultado.
Eu mesmo me beneficiei bastante desse truque, quando trabalhava em uma consultoria de informática ao lado de vários vendedores, o famigerado “pessoal do comercial”, que vende para 3 meses sistemas que levam 7 para ser minimamente programados (embolsando comissão, claro). Como essa nobre estirpe de pessoas trabalha com a voz – e fazem questão de mostrar que estão trabalhando, se é que me entendem – o que se tem é um cenário totalmente incompatível com o trabalho intelectual de desenvolvimento de software. Eu não tinha dúvidas: invocava 7 Winamps e carregava em cada um um mp3 com o missionário R. R. Soares orando em línguas. O frenesi de glossolalia resultante me garantia uma certa paz para trabalhar. Comissão que é bom, nada…
Na segunda parte, descreverei como é possível gravar essa montagem sonora em um único mp3, facilitando assim uma audição posterior e abrindo possibilidades exponenciais de composição.
OBS: esse recurso de abrir mais de uma instância não funciona no Windows Media Player. O player da Apple não sei dizer, que eu não mexo com essas coisas. Aconselho todos a usar o velho e bom Winamp mesmo.
Leia a segunda parte: Música em paralelo II: Gravai e multiplicai-vos
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