O mundo perde Waldick Soriano
Sep 5th, 2008

Mais um Ãcone se vai.
Em 2007 perdemos Marinês, a dama do xaxado. Esse ano já registrou uma grande e prematura baixa, Adelino Nascimento. Agora, novamente o Brasil fica menos brega. Bem menos. Um câncer de próstata levou ninguém menos que Waldick Soriano. Essa perda é das grandes, estamos falando de um dos pilares da música brasileira.
Influência
Waldick era daqueles cantores que muita gente ouvia mas não admitia nem sob tortura. Isso devido ao cisma que, em algum ponto da história, tornou inaceitável para muitos o velho brega romântico. Fez-se uma bifurcação e era necessário escolher: o caminho estreito e refinado da mpb e adjacências ou o caminho largo do brega rasgado. E, exatamente como naquela outra situação de caminhos estreito e largo, quem escolheu o primeiro não admite que outros possam escolher o segundo.
Na época, a crÃtica padrão era a de que o brega apoiava a ditadura, ao não se opor à mesma. Já é lendária a resposta dada por Waldick à pergunta sobre por que não combateu a ditadura: Estava ocupado gravando e cantando, enfim, trabalhando. Owned! Esta e outras histórias estão no livro Eu Não Sou Cachorro, Não - Música Popular Cafona e Ditadura Militar, leitura recomendada.
Eu já ouvia Falcão de longa data e Eu Não Sou Cachorro Não era tudo que conhecia de Waldick, devido à versão falcônica. Comecei a acompanhar mesmo a obra soriana já tarde, por volta de 2004, quando adquiri seu penúltimo disco, Minha Última Noite, lançado pela Gema e comprado em uma das minhas visitas à loja Mano Véio Mano Novo da Paulista. Ia ouvindo o disco no caminho para a faculdade, a moribunda FASP. Desnecessário dizer que se tornou influência instantânea.
Repercussão
Curioso foi ver a repercussão da morte. Saiu no Jornal Nacional, matéria até bem editada. Em um trecho, a repórter menciona que ele era rotulado de brega. Na VEJA.com, o termo brega é grafado entre aspas.
Vê-se que a grande imprensa ainda resiste aos fatos. O Brasil é brega por definição, e ter a música classificada como tal não é de forma alguma ser rotulado, eu encaro como uma comenda. O próprio Waldick não gostava do termo brega - preferia romântico - talvez bem mais pela conotação com que costuma ser usado do que pelo termo em si.
No Estadão, matéria surpreendentemente justa, destacando inclusive a “genialidade” do censor que barrou a música Tortura de Amor pelo tÃtulo. A Folha foi apenas burocrática e sucinta, que isso de romantismo popular não é o perfil do jornal. O G1 - que entrevistou Waldick em 2007 - informa que Falcão foi incentivado pelo próprio Waldick a gravar I’m Not Dog No, a versão em inglês canônico, tradução literal feita palavra por palavra com o dicionário Inglês Sem Mestre da Ediouro. No próprio blog do pensador cearense, a justa homenagem ao amigo e Ãdolo. Finalmente, vale ler o depoimento de José Teles, crÃtico de música do Jornal do Commercio de Recife, que conta passagens curiosas da vida do astro de forma bem mais direta e contundente do que os corretos textos jornalÃsticos da imprensa do sul.
Aliás, falando no noticiário da grande imprensa, nota-se como é fácil ser portal. Basta repetir o que agências (Reuters) divulgam e pronto. Nesse caso, o negócio era dizer que Tortura de Amor teve uma “releitura” por Fagner. O Estadão se deu ao trabalho de pesquisar um pouco:
Uma vez liberada, a canção, um bolero composto em 1962, da melhor concepção de Waldick, tornou-se grande sucesso na voz do cantor. Depois ganhou releituras nas vozes de Nelson Gonçalves, Fagner, Fafá de Belém, Maria Creuza e o grupo português Clã, entre outros.
Engraçado. Por que será que quando um cantor regrava um brega ele faz uma “releitura”? O termo é regravação, amigos! O próprio Caetano regravou, por sinal mais de uma vez. Quanto ao enigmático “entre outros” da lista acima, trata-se de nomes do próprio brega, como o carioca Adilson Ramos.
Legado
O legado soriano é, em uma palavra, superlativo. Ele afirma ter gravado 84 discos, mas mesmo que fosse a metade, trata-se de um feito. Gravou, foi regravado, influenciou e influenciará.
Mais do que um cantor, Waldick é um estilo. Sua releitura (eu também posso, certo?) do paletó e gravata se tornou uma estética própria, a meio caminho entre um executivo da Paulista e Raimundo Soldado.
Nada poderia defini-lo melhor do que uma frase do próprio, dita ao amigo Falcão: “Quem é, é”.
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[Atualização]: A Folha noticiou o enterro e disponibilizou uma página com a discografia, obtida de um certo Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. São apenas 30 tÃtulos. O curioso é que do penúltimo disco (1978) pula-se direto para o último em 2007. Nem sinal do nome Gema. O que seria, então, a imagem que abre esse post? Uma montagem minha?
Folha e Cravo Albin, favor abrir o navegador e digitar www.gemagravadora.com.br. Grato.
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[...] justa homenagem ao que parte. Lembranças a Adelino, Soldado e [...]
Lamento profundamente a ida de Waldick Soriano. A mpb perdeu um dos mais ilustres.