Peter Brötzmann e Ivo Perelman no SESC
Jun 8th, 2008
Quase não acreditei quando recebi o email: Peter Brötzmann ia tocar em São Paulo, junto com Ivo Perelman. Era o último show que eu esperava assistir. E o melhor, do lado de casa, no SESC Vila Mariana. Bendita hora em que eu saà do Morumbi, ainda mais em dia de jogo grande, quando o transtorno só aumenta para sair do bairro.
Quando fui comprar os ingressos no domingo notei que boa parte da lotação do teatro de 608 lugares já estava vendida. Pensei: “será que esse povo todo faz idéia do que vai ouvir?”. É claro que não.
Chegamos por volta de 20:30, com meia hora de antecedência. No panfleto com o programa, o espaço destinado ao repertório do show trazia a seguinte informação (clique na foto para ampliar). Um modo quase parnasiano de se dizer barulho apocalÃptico.
Começa o show com Ivo Perelmann. Paulistano radicado em Nova York, mais de 30 álbuns. É mais um caso de brasileiro que precisa sair do paÃs para fazer sucesso, embora nesse caso seja até compreensÃvel dada a natureza, digamos… difÃcil do estilo. Ivo fez um show curto de cerca de meia hora, totalmente acústico, com baixo e violino.
A violinista alemã Rosi Hertlein atacou de vocal lÃrico em uma música, e o público aprovou. O baixista americano Dominic Duval, como não poderia deixar de ser, passou alguns momentos na dimensão paralela dos baixistas. Já explico.
No geral, pode-se dizer que foi uma apresentação pacata, se comparada com o massacre que viria a seguir. Eis uma amostra do som no MySpace.
Pequena pausa, e eis que entra o alemão, depositando seu arsenal de 3 saxofones em uma mesa. Formação tÃpica: bateria, baixo (elétrico) e sax.

Full Blast !
Peter Brötzmann é um alemão de 67 anos, barba branca e aparência pacata. Ledo engano. Quando começou, o teatro veio abaixo. A primeira peça parecia interminável, cheguei a pensar que ele não ia parar. Atacava furiosamente o sax, acompanhado pelo baixo cheio de efeitos e por uma bateria pra lá de ensandecida. Abriram com a primeira faixa do último álbum, Full Blast (2006). DifÃcil pensar em um tÃtulo mais apropriado.
O baterista Michael Wertmuller foi um show à parte. Poderia perfeitamente tocar em uma banda de grindcore e em muitos momentos só faltou o vocal para se caracterizar o mais legÃtimo grind. Nem pedal duplo faltou. Sou da opinião de que todo kit de bateria tem um propósito: o de ser impiedosamente espancado, mesmo que na maior parte do tempo seja usado para ritmos leves. O kit de Wertmuller cumpriu perfeitamente seu propósito neste show.
O baixista Marino Pliakas usou e abusou de efeitos e, como todo baixista, entrou em alguns momentos em uma dimensão paralela de possessão instrumental, o baixismo, onde o som do baixo se sobrepõe a tudo e não se ouve mais nada. Pelo que já assisti e presenciei em ensaios, parece ser algo tÃpico no instrumento.
Possessão, aliás, foi o que não faltou no palco. Em alguns momentos o sax soava com aquela sonoridade sofrida de Albert Ayler.
Terminada a primeira música, Brötzmann toma o microfone, faz as apresentações e agradece a presença de todos em um inglês com sotaque, meio ofegante e quase sem voz. Pensamos que ele mal ia agüentar o resto do show. Mas com exceção de um ou outro momento mais lento, foi porrada até o fim. Pulmão de aço.
Bônus
Bom, nesse ponto começou o bônus que costuma acontecer em todo show de free jazz. Aconteceu no Chivas Jazz e é claro que aconteceria aqui. Lembram-se quando eu estranhei a boa venda de ingressos? Pois é. Acontece que muita gente, frequentadores sofisticados do SESC que são, deve ler “Free Jazz” e imaginar que é apenas a tradução literal.
- Jazz livre? Deve ser um jazz mais solto, moderno. Vamos?
- Legal, vamos.
Quando a barulheira começa, a verdade vem à tona. E é nesse ponto que os casais começam a se levantar e deixar o recinto. O que para nós, fãs do estilo, é algo que já paga o ingresso.
Vejam, não se trata de desdenhar de quem não gosta ou algo assim. Mas em tempos de internet e YouTube só vai a um show desconhecendo o que vai ser apresentado quem quer. Não custa nada gastar 2 minutos e pesquisar o nome do artista antes. Daà o sujeito metido a descolado quer impressionar a namorada - depois de ter lido aquela bela descrição do repertório - e quebra a cara. Depois não reclame dos fãs de free rindo dos “desistentes”.
Amostra
O SESC não permite o registro dos shows, então não há vÃdeo nem fotos, mas o gravador de voz do celular ficou acidentalmente ligado durante a apresentação e registrou tudo. O som está meio embolado mas este trecho de 1 minuto sintetiza bem a noite.
Para finalizar, dois momentos do trio em vÃdeo. O primeiro há cerca de um mês em Cheltenham, Reino Unido. O segundo é de um ano atrás, em Shangai, China.
Com o volume bem alto, dão uma idéia audio-visual do que ocorreu nesta quarta no SESC.
Vida longa e barulhenta ao free jazz.

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[...] Antes de mais nada, já adianto que de vez em quando sou uma espécie de traidor do movimento, visto que dependendo da época eu escuto pouco rock e mais outras coisas. [...]
[...] já expliquei na resenha do Brötzmann, muita gente vai esse tipo de show sem ter a menor idéia do que vai ouvir. Lêem as descrições [...]