Sobre Rolex, Bandidos e VÃtimas
Oct 17th, 2007
Bandido é bandido, vÃtima é vÃtima.
A verdade acima vem sendo distorcida há muito no Brasil. Esticada, torcida, dobrada, relativizada. Tanto pior se a vÃtima for rica e/ou famosa: brasileiro nasce com ódio ao sucesso alheio impresso no DNA. Tom Jobim matou a charada: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”.
Não gosto do Luciano Huck, nem do seu programa, muito menos de estrelas globais. Só que gosto ainda menos de vÃtima sendo transformada em culpado, e bandido tendo suas ações justificadas.
Justificando o injustificável
Na segunda-feira passada um tal Reginaldo Ferreira da Silva escreveu na seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo sob o pseudônimo Ferréz (Ãntegra para assinantes do UOL). Se diz escritor e rapper, autor de “Ninguém é Inocente em São Paulo”. Pelo tÃtulo já se vê a que veio.
O texto, escrito na forma de uma crônica que mostra o pensamento do “correria” - eufemismo para assaltante motorizado - que praticou o assalto é nojento, podre, para dizer o mÃnimo. Em cada linha tenta justificar um assalto a mão armada, ainda que com vÃtima fatal. E empurrar a culpa para a tal sociedade.
Eis o pensamento do autor:
Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar
Mas se quem chorar for a mãe da vÃtima tanto faz, certo mano?
Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vÃtimas. Ou matava logo ou saÃa fora.
Como é piedoso, o “correria”. Não faz a vÃtima sofrer. A morte é rápida e indolor. Que tal uma medalha para ele?
Como alguém usa no braço algo que dá pra comprar várias casas na quebrada?
Pronto, Ferréz ataca tambem de economista e institui uma nova moeda polÃtica, no lugar do Real: a casa na quebrada (proponho a sigla CQ$).
Quanto vale um CQ? Não sei, mil reais, 2.000? Tanto faz. Pensamento tosco, rasteiro, terceiromundista: ninguém pode ter ou usar algo de valor enquanto houver uma criança passando fome no Capão Redondo.
Nos 2 parágrafos finais, a conclusão absurda:
Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.
No final das contas, todos saÃram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.
Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes
Se não desse certo, caixão. Mas note bem, o caixão que importa, que merece ser lamentado, é o do “correria”. O da vÃtima é só força das circunstâncias, certo mano?
Conivência
O que mais me espantou não foi o texto do tal Ferréz. Isso já era esperado. O que me espantou foi ver tanta gente entrando nessa conversa, demonizando o Huck. O cara foi culpado por ter sido assaltado!
Sim, a classe média brasileira é omissa. Sim, os protestos depois do acidente da TAM têm toda a cara de fogo de palha. Mas quem é o juiz que decide quando uma pessoa pode se indignar? Uma das cartas à Folha foi de Zeca Baleiro, que, honrando a tradição buarquista dos músicos de MPB de falar bobagem sobre polÃtica, escreveu que a elite brasileira era mesmo patética por “só mostrar indignação com a situação do paÃs depois de ter o Rolex roubado”.
Se for rico, existe um prazo máximo para se indignar? Depois desse prazo qualquer protesto se torna ilegÃtimo? Quem determina o prazo? Zeca Baleiro?
A imbecilidade necessária pra tomar partido dessa inversão de valores parece crescer a cada dia. Só que esse pensamento tem um problema:
Se amanhã o “correria” emparelhar com você no trânsito - sim, você que culpou o Huck - e decidir que o seu querido iPod ou seu celular vale, sei lá, CQ$ 0,50 ou CQ$ 1,00, ele pode decidir “fazer a fita”.
E nesse caso, amigo, se a “fita” der errado não vai adiantar dizer que você defendeu o cara nas cartas da Folha ou em um blog.
Firmeza?
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A lucidez é uma virtude em falta hoje. Parabéns por manter a sua.
Cara.. na boa.. só quem já passou por uma situação dessas pra saber como reagiria no dia seguinte.
Belo texto..
Ronaldão, o grande lance é religioso. É pecado, para os católicos ter lucro, desde a idade média.
Considerando quem são os maiores católicos do mundo, nada mais justo que o Hulk seja assaltado, até mesmo por uma elite intelectual, que guardadas as proporções só não via na missa porque AINDA não é escrita em latim ou frânces.
Att.
Parabéns, Ronaldo, pela coerência do seu texto. A inversão de valores está realmente chegando a limites inaceitáveis neste paÃs.
é, se você pensa assim
paciência
Quem pensa assim não sou só eu, é a imensa MAIORIA do povo brasileiro. Sua paciência vai ter que ser bem grande.
O pensamento contrário - defender bandido e culpar vÃtimas - é coisa de viuvinhas do Che e artistas da mpbosta.
Não se trata de defender bandidos e de colocar a culpa na vitima.
O problema todo é que enquanto não damos oportunidades e perspectiva de futuro para todos, enquanto não formos iguais e livres, não poderemos cobrar uma atitude digna daquele que passa fome.
Ninguem merece ser assaltado, ninguem merece ter sua vida colocada em risco, mas ninguem merece assistir como a vida pode ser linda na tv e no momento em que a desliga se deparar com a fome e a miseria.
Facil falar quando estamos com nossos empregos e de barriguinha cheia.
E não me venham dizer que “oportunidade a gente cria”, já ouviram falar de exercito de mão de obra reserva?
Pois é, enquanto vivermos num mundo capitalista, onde o importante é se dar bem, mesmo que para isso outros tantos passem fome, não dá para cobrar que todos tenham as mesmas atitudes.
Afff!!!!!
Sobre a ausencia do Estado, ninguem comenta…
Sobre o abismo social, nem uma palavra…
Sobre capitalismo selvagem, silencio…